quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Tecnologia Assistiva - Um pequeno manifesto

     Ceilândia, 29 de Dezembro de 2016

     Olá.

     Meu nome é Oldair Vieira. Sou brasileiro, moro em Ceilândia, cidade satélite de Brasília - DF. Nasci em 1972 e neste mesmo ano me tornei deficiente físico após contrair o vírus da Poliomielite. Também neste ano iniciei meu tratamento no Hospital Sarah Kubitchek (Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação) http://www.sarah.br/ onde depois de algumas cirurgias e sessões de fisioterapia pude finalmente aos 6 ou 7 anos de idade andar com minhas próprias pernas através do suporte de órteses e bengalas. Desde então tenho feito acompanhamento com estes profissionais excepcionais e certamente me faltam palavras para agradecer de forma justa o que essas pessoas maravilhosas tem feito pela minha reabilitação e a de  muitos outros iguais a mim. 
     Um relato mais apropriado será motivo de outra postagem neste blog. No momento vou me ater ao objeto desta.
     Depois de uma experiência extraordinária que meu amigo Zé Carlos (obrigado, meu irmão!) classificou como transcendental, tive um "insight" de que deveria levar o conhecimento que adquiri ao longo da vida a outras pessoas que necessitassem. 
     Permitam-me explicar melhor: Sou músico, técnico em eletrônica e luthier (entre outras coisas), os equipamentos que uso são adaptados à minha necessidade. Descobri que sem me dar conta sou um desenvolvedor de Tecnologia Assistiva (termo este que até pouco tempo nem sequer sabia que existia) na área de música podendo ser um colaborador inclusive para outras áreas. 
     Conceito: No Brasil, o Comitê de Ajudas Técnicas - CAT, instituído pela PORTARIA N° 142, DE 16 DE NOVEMBRO DE 2006 propõe o seguinte conceito para a tecnologia assistiva: "Tecnologia Assistiva é uma área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social" (ATA VII - Comitê de Ajudas Técnicas (CAT) - Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (CORDE) - Secretaria Especial dos Direitos Humanos - Presidência da República). Mais informações neste site  http://www.assistiva.com.br/tassistiva.html.
     Em conclusão, o que atende às minhas necessidades poderá atender às necessidades de outrem em igual situação. Qual outro caminho óbvio senão compartilhar a informação que poderá levar a mudança às vidas de outras pessoas?  
     Eis-me então em um momento de inspiração, quando um sem número de ideias me ocorrem como a explosão do big-bang, em projetos que tornariam possível a pessoas com deficiência nos mais diferentes graus terem acesso a produção de uma das mais sublimes formas de expressão artística - a música.
     Sendo assim esta é a contribuição que eu posso e quero dar para tornar a sociedade mais inclusiva diminuindo as barreiras e unindo as pessoas através de uma linguagem universal que não se submeta a preconceitos. Todo pessoa merece viver sua vida com plenitude, sendo tudo que pode ser independente de sua limitação física, viver por inteiro e não pela metade.
     Neste momento inicial isto pode parecer apenas um bocado de palavras  representando um conjunto de ideias em um blog desconhecido. Entretanto, as ações já estão em curso e a próxima postagem será a construção da interface que eu uso para acionar funções de um processador de efeitos de forma remota através dos controles de uma guitarra. Um recurso que me dá completa independência uma vez que não posso acioná-las com os pés.
     Outros debates virão com o tempo mas para não me alongar muito fico por aqui com este pequeno manifesto e introdução aos trabalhos que virão. Desde que voltei aquele lugar mágico onde se recuperam não só movimentos mas pessoas, auto estima e tantos outros valores me sinto recarregado de energias para encarar os maiores desafios. 
     À seu tempo, agradecerei abertamente às pessoas que tornaram isso possível. Um sonho está tomando forma.

     Aqui, um cidadão renascentista eternamente grato por tudo que tem vivido. 


Eu, fazendo graça com tutores longos e bengalas.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Double Neck Parte 1

Bom dia para todos.
   
     Há alguns meses atrás fui agraciado com a proposta de iniciar uma etapa diferente nos trabalhos da luthieria. Esta veio através do meu amigo, músico excepcional e baixista do trio Protofonia André Gurgel que me encomendou nada mais, nada menos do que dois instrumentos novos, dois desafios, na verdade.
     Em primeira mão gostaria de agradecê-lo pela oportunidade e confiança em acreditar que estou à altura de tal proeza.
     Vou separar os trabalhos em dois tópicos para facilitar e o primeiro deles será o double neck. A saber, trata-se de um instrumento de dois braços que pode ter configurações distintas (2 guitarras de 6 cordas, uma de 6 e uma de 12, baixo e guitarra de 6, baixo e guitarra de 12 etc...). Neste caso será uma guitarra de 6 cordas na parte de cima e um contra baixo de 4 cordas na parte de baixo.
     Conforme as novas diretrizes do blog todos os trabalhos serão postados passo a passo com o máximo de detalhes técnicos possível.
     Antes porém, cabe um esclarecimento. É sempre bom lembrar que não existe método exato para se construir um instrumento, o conjunto de técnicas aplicadas aqui podem divergir de outras usadas por outros luthiers e sempre cabe discussão a respeito de qual método será mais adequado para se chegar ao resultado desejado. Toda sugestão será sempre muito bem vinda.
     Deve-se ter em mente sempre que antes de começar um projeto é preciso saber o que se quer e o resultado que pretende alcançar obedecendo uma sequência lógica de ações para não se perder no caminho. Disciplina é fundamental em qualquer atividade humana e aqui não será diferente.
     Sendo assim começaremos com o desenho do instrumento.

     Este desenho reúne dois instrumentos Zimmer-Collen. O corpo e braço de guitarra são do modelo "Pacífica" e o braço do baixo do modelo "Tritão". O desenho foi feito através do software Inkscape de distribuição gratuita https://inkscape.org/pt-br/baixar/ usando as ferramentas caneta bezier e edição de curvas em sistema Linux nativo. Para quem ainda não conhece esses modelos aí vão as fotos. 



      Diferente dos modelos já construídos o DN (para encurtar) terá na guitarra captadores humbuckers com chaveamento double/single e o baixo captadores single. O método de construção será o mesmo usado no Tritão.

Escolha das madeiras e hardware

     Um instrumento deste porte deve obrigatoriamente levar em consideração o peso que deve ser o menor possível para não causar lesões ao músico. As madeiras escolhidas foram as mesmas do Tritão que mostrou ótimo resultado de estabilidade e sonoridade e beleza estética. Para o braço serão usados Jequitibá com miolo de Marfim separados por duas tiras de Imbúia. Escala de Ipê. No corpo uma prancha de 4 cm  de Marupá coberta com uma camada de Imbúia e outra de Amapá com tróculo semelhante ao braço. As madeiras foram compradas na JB Madeiras em Taguatinga Norte (falar com Sérgio ou Waldson).
     O hardware deverá seguir o mesmo critério de peso.

Cortes

    De posse das madeiras é hora seccionálas nas medidas certas. Foram cortadas 2 peças de jequitibá (30x40x900 cm), 1 peça de marfim (9x4x900 cm) para o braço do baixo, 2 peças de jequitibá (30x40x700 cm), 1 peça de marfim (9x4x700 cm) para o braço da guitarra, 4 peças de jequitibá (30x40x450 cm), 2 peça de marfim (9x4x450 cm) para os tróculos e várias fitas de laminado de imbúia para o acabamento entre as peças. Também foram cortadas 3 peças de marupá nas medidas 4x17x45 cm e 3 lãminas de imbúia e amapá nas medidas de 15x45 cm. Obs.: Os cortes foram feitos em medidas ligeiramente maiores e depois aplainados no desengrosso até chegar às medidas corretas.


Montagem das peças

     Tanto os braços quanto os tróculos obedecem ao mesmo critério de montagem, é feito um sandwiche com as madeiras na seguinte sequência: jequitibá - imbúia - marfim - imbúia - jequitibá. Aplica-se cola, junta-se as peças e prende-se com morsetes.


Madeiras antes da colagem

 Detalhe de um tróculo já colado e aplainado novamente

De cima para baixo: Braço da guitarra, tróculos e braço do baixo

Prancha do corpo e lâminas antes da colagem
 
Prensagem

     Depois de coladas as peças devem ser aplainadas novamente. Nas fotos acima se pode apreciar o acabamento final nas junções, um detalhe muito bonito.

     Por enquanto é isso. Próximo passo: Medidas e construção das escalas. Aguardo todos por aqui.

     Oldair Vieira - Cidadão Renascentista

     Compartilhar sempre - Gratidão eterna

domingo, 18 de dezembro de 2016

Re-voltando

Olá a todos.

Passando por aqui (depois de uma longa ausência) para informar que haverão atualizações durante as próximas semanas e o anúncio de mudanças na política de funcionamento da empresa Zimmer-Collen. Novas linhas de produtos estão programadas para 2017 e também a criação de um departamento de desenvolvimento de equipamentos voltados para pessoas com deficiência física. Também à partir de janeiro todos os projetos desenvolvidos serão publicados na íntegra com esquemas, layouts de PCI e todos as informações necessárias para reprodução.

Melhores dias para todos - Compartilhar sempre!

Oldair Vieira Gonçalves - Cidadão Renascentista

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Atlântica I e II - Parte 3

Bom, vejamos aonde havia parado. Ah, realmente havia parado por conta das peças que tinha comprado e não chegara ainda. De posse destas vamos em frente. Próximo passo: formatar o braço.



Aproveitei e testei o encaixe. Depois de formatado colar a lâmina de cobertura da paleta e furar os buracos das tarrachas e do padrão Zimmer-Collen (marca registrada é importante). A seguir o detalhe da paleta.






Hora de entrastear a musa. Trastes Dunlop médio serão aplicados. No detalhe o curvador de trastes feito por eu mesmo. Não muito preciso ainda mas funciona bem. Logo farei um upgrade.



E finalmente, o braço já entrasteado.



E pra fechar por hoje, a construção em sanduíche da Atlântica II com 2 peças de peroba rosa e uma de ipê.


Por hoje é só.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

ATLANTICA l E ll - Parte 2

Muito bem. Como todos já viram como é feita uma guitara passo a passo no "Diário da construção de uma guitarra" vou abreviar alguns pontos e passar para as vias de fato. Das duas guitarras modelo Atlântica a primeira terá o corpo em cedro rosa, braço em pau marfim, escala em ipê e cobertura da paleta em imbúia. A ponte é tremolo flutuante de 2 pivôs Wilkinson e os captadores alnico 5 também Wilkinson. Vamos as fotos.

Abaixo: Madeira para o braço - marfim


 Colagem da escala já com o tirante embutido (é lógico, né?).


 Depois de seco...



Escala rebaixada e abaulada.


E pra encurtar a conversa, o corpo já cortado escavado e chanfrado.




 Detalhes dos rebaixamentos, isso deixa o instrumento muito mais confortável.


Colando as laterais da paleta.



 Depois de seco, os recortes.



Bom, por hoje é só. Espero que estejam apreciando. Comentários são bem vindos. Até breve.

terça-feira, 21 de abril de 2015

ATLÂNTICA I E II - Parte 1

Passando por aqui para deixar o 'template" que quer dizer "molde". Assim a comunicação fica mais fácil. Nada de "headstock", "cutaway", "hollow body" e outros estrangeirismos. O negócio aqui vai ser no bom português a partir de agora e se eu me esquecer podem puxar minha orelha. Aí vai o molde com a participação especial do pé do Moisés.


Apesar de tê-lo feito em MDF é mais aconselhável fazê-lo em acrílico (PVC e ABS também são bons) ou alumínio (ideal). Jamais de papel, cartolina ou cartão. Estes todos mudam de tamanho com a umidade, inclusive o MDF também conhecido como masonite que é um tipo de super papelão prensado e é muito ruim para aplicações sérias. Mas por ser um molde dá pra passar, o problema é que não vai durar muito e se estiver pretendendo fazer muitas cópias com o passar dos anos as curvas mudarão de lugar! 
É isso aí, o próximo passo será juntar as peças de cedro para os corpos.
Até já!

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Encomendas! Yeah!

Ok, é isso aí. Vai sair a primeira encomenda da série Oceânica. Depois da "Pacífica" agora é a vez da "Atlântica". Serão feitas simultaneamente duas dessas guitarras com sutis diferenças entre parte elétrica e madeiramento. Entre as madeiras estão o Pau Marfim, Cedro Rosa, Jequitibá, Imbuia, Ipê e Peroba Rosa. Ponte flutuante e captadores single (talvez um humbucker dependendo da escolha do cliente). Para iniciar os trabalhos o desenho em escala é mostrado. Como se pode ver no detalhe há vários entalhes no corpo para encaixar as mãos facilitando o acesso a todas as casas do instrumento e acomodar o braço (do músico). Sobre o desenho a delicada mão de minha querida ajudante Núbia Verônica.

Próximo passo: Templates.

Até lá!